domingo, 29 de janeiro de 2017

MEDITAÇÃO E TERAPIAS. CORAGEM E HUMILDADE.

I.                Me parece – como resultado parcial da minha reflexão em função de 40 anos de buscador e quase 20 de terapeuta – que a espinha dorsal, o foco central de qualquer processo de auto conhecimento e de cura deveria ser a meditação.
Quase todas as culturas antigas parecem corroborar este fato.
E quase todas estas culturas desenvolveram técnicas e métodos não só de meditação como também de práticas acessórias que vão dar suporte e complementar este exercício.
E o que me parece mágico é que meditação, como técnica, é a coisa mais simples que existe, oferecida para se resolver a mais complexa – a questão do equacionamento do sofrimento e das limitações humanas, e a re-experienciação de quem realmente se É.
Então eu queria aqui refletir sobre o processo da meditação como um todo, em seu aspecto mais amplo.
E vou focar aqui nas culturas orientais, que são as que conheço melhor.
Percebo que todas estas culturas desenvolveram, não só variadas técnicas de meditação, como também de práticas e exercícios que tem a função de complementar, elaborar, e expandir para todo o complexo humano, os benefícios auferidos com a prática da meditação.
Estas antigas culturas percebendo a complexidade do ser humano, não só desenvolveram estruturas de conhecimento e de técnicas que se propõe a trabalhar toda a dimensão do ser humano, mas também abordando o trabalho sempre do interior para o exterior e do exterior para o interior.
Assim, vemos por exemplo, no Yoga, como todas as abordagens – Jñana, Bhakti, Karma, Raja, Hatha – contém em si todas elas. 
Impossivel, por exemplo, Karma Yoga sem Bhakti, sem Jñana, sem meditação, sem trabalhar a dimensão psico-física, e por aí vai, numa compreensão milenar da natureza holística e sistêmica do ser humano.
Uma outra característica fundamental das culturas orientais é a presença de um Guru, de um Mestre espiritual.
Desta forma, o Guru pode desempenhar quatro funções na vida de um discípulo:
- Oferecer sua Luz, seu Amor, sua Paz, sua Energia
- Oferecer seu conhecimento e sabedoria
- Oferecer seu exemplo de vida
- Oferecer sua companhia física no dia-a-dia do aprendizado do discípulo.
Para se beneficiar dos três primeiros quesitos não é necessário que o Guru esteja vivo. Todos os devotos de seres iluminados como Ramana Maharshi, Ramakrishna, Nisargadatta, Yogananda, entre outros, recebem a Luz, os conhecimentos e o exemplo de vida de seus Mestres sem precisar te-los conhecido pessoalmente.
Mas tem o quarto quesito, onde o Guru funcionava como uma espécie de terapeuta, ajudando ao discípulo à compreender, elaborar, transmutar todo o material psico-emocional-energético que era liberado através das práticas de meditação, dos estudos, das práticas devocionais, das práticas psico-físicas.
Quando, lá pelos idos dos anos 60 e 70, a cultura oriental “invadiu” o ocidente, vieram os livros, vieram as técnicas, a culinária, as músicas, mas vieram pouquíssimos Gurus, e muito pouca gente pode se beneficiar do dia-a-dia com um Mestre ao seu lado dando suporte às práticas, aos obstáculos e aos resultados delas.
E aí, na minha “viagem na maionese” eu penso que a consciência planetária vendo isso, e vendo que o ocidente ia acordar para o acesso a dimensões e níveis de realidade bem mais amplas e profundas de si e da vida, e percebendo que a figura do Guru não faz parte da realidade ocidental, precipitou a figura do terapeuta.
Inicialmente através da Psicologia e da Psicanálise, e depois das terapias em geral.
O terapeuta viria cobrir a lacuna da quarta função do Guru, a de facilitar o acompanhamento e o suporte de um dia-a-dia no exercício de técnicas e métodos de auto cura e de auto conhecimento.
A diferença é que o Guru é um ser iluminado capaz de enxergar a profundidade da mente e da alma de seu discípulo. Sua função maior é levar o discípulo à iluminação, à experienciação de quem ele realmente É.
O terapeuta é um técnico, que aprendeu um método - e que se submete também a ele - e que está habilitado a dar suporte terapêutico no decorrer da jornada de seu cliente. Sua função é a de ajudar ao cliente a viver da melhor forma possível a sua humanidade.
Uma outra coisa que acabou acontecendo com a chegada do mundo oriental no ocidente é que o conhecimento veio fragmentado.
Os orientais sabiamente desenvolveram estruturas filosóficas, corpos de conhecimento, onde o discípulo trabalhava e exercitava todas as dimensões do seu ser – corpo/emoções/mente/energia/espírito – com um corpo de técnicas e métodos que envolvia todos os níveis e dimensões do discípulo.
Então, sob a supervisão de um Guru, ele meditava, estudava as escrituras, fazia exercícios psico-fisicos (como Hatha Yoga), se educava em conceitos éticos e morais, exercícios devocionais, etc.
Quando estas culturas chegaram aqui, elas não vieram trazendo toda esta complexidade, todo este corpo de conhecimentos e técnicas, até porque quando uma cultura entra em outra, ela nunca entra inteira, dadas as diferenças (e os impecílios) de ordem geográfica, histórica, cultural, antropológica e sociológica.
Então as técnicas que antes eram realizadas dentro de um conjunto de procedimentos, passaram a serem feitas e exercitadas isoladamente, como, por exemplo, a meditação e o Hatha Yoga, que foram as que mais se notabilizaram aqui.
E na minha opinião, esta fragmentação, aliada à falta do Guru presente, de alguma forma diminuiu e sub utilizou a potência e a eficácia destas técnicas, segundo o objetivo e a efetividade a que elas se propunham quando em seus locais e culturas de origem.
Neste processo inteligente da consciência planetária, onde percebendo a futura eclosão desta expansão, precipita a Psicologia criando a figura do terapeuta, ela pretende que as terapias possam de alguma forma suprir estas lacunas, servindo como auxilio e suporte nos processos de auto conhecimento e de cura psico-emocional.
Achar que a sua religião, ou a sua escola de filosofia ou a sua linha de psicologia, de terapia ou de meditação é a única boa ou é a melhor de todas, é fanatismo. Agora, achar que todas as suas questões existenciais, psico-emocionais e espirituais vão ser resolvidas apenas pela sua religião, pela sua escola de filosofia ou linha de psicologia, de terapia ou de meditação, ou é ingenuidade ou é ignorância.
Não existe panacéia, portanto não existe nenhuma religião, filosofia ou terapia que seja boa para tudo, para todos, o tempo todo. É necessário ter-se a humildade e a coragem (e a consciencia) de aceitar o poder da sinergia, da integração dos caminhos, de buscar ajuda em outras linhas e escolas.

Voltando ao inicio da conversa, e trazendo-a para meu universo particular pessoal e profissional, penso que as terapias são poderosas ferramentas auxiliadoras e complementadoras das práticas de meditação e de Hatha Yoga, ajudando a processar e transmutar mais rapidamente o material psico-emocional em sofrimento e limitação que emerge do inconsciente através destas duas práticas, e consequentemente ajudando a tornar mais efetivos e profundos os efeitos destas práticas, e de forma mais rápida e otimizada.

    II.   Na minha opinião, absolutamente nenhuma religião, linha de psicologia ou de terapia, tradição espiritual, técnica de cura ou escola de filosofia, pode ser boa para todos, para tudo, o tempo todo.

   O que quer dizer que, na minha opinião, qualquer religião ou tradição espiritual, linha de psicologia ou técnica de cura vai - em algum momento, em alguma circunstância e contexto, e para algum caso ou para alguma pessoa - ter contra indicações e/ou efeitos colaterais.

    Ou seja, não existem panaceias.

    Penso que em um universo onde a relatividade é sua característica inerente e constitucional, é impossível qualquer coisa existente ter um valor absoluto.

    E nesta realidade relativa e dual, qualquer coisa pode ser boa ou ruim, certa ou errada, negativa ou positiva, adequada ou inadequada, dependendo em um complexo conjunto de fatores.

    Então... talvez seja interessante que terapeutas, curadores, psicólogos e lideres espirituais tenham a humildade (e a coragem) de reconhecer os limites do caminho que disponibilizam e facilitam para o outro, e que eventualmente recomendem outros tipo de terapias ou de caminhos de cura para seus clientes, pacientes e/ou discípulos.

    Só acredito na sinergia, não acredito em competição nem em “choque de egrégoras”.

     Claro que existem maluquices misturebas picaretas e irresponsáveis por aí, mas acredito que são minorias.

     Mas o que tenho percebido – infelizmente também ainda em minoria - são terapeutas e curadores abertos e responsáveis (e corajosos) que - modéstia à parte, como nós - eventualmente recomendam que seus clientes procurem outras terapias e caminhos de cura mais adequados àquele caso ou àquele momento.

      Não acreditamos (e não nos importamos) em “perder clientes” pois segurar um cliente em uma terapia que não está evoluindo, quem sempre perde é o cliente. Ou seja, para nós, o cliente é mais importante do que ser nosso cliente.

     Assim como acreditamos que os seguidores de religiões não perdem nada quando reconhecem que o caminho que estão trilhando já não oferece alimento integral para suas demandas humanas e espirituais, e resolvem migrar para outra religião ou tradição.

    Ou assim como quando os seguidores de religiões entendem humildemente que às vezes é preciso recorrer paralelamente a outros caminhos – como por exemplo, fazer terapia – para otimizar seu caminho evolutivo.

    E isto em nada macula ou trai sua religião nem tampouco passa um atestado de ineficiência para o caminho espiritual que escolheu trilhar.

   Assim como quando um terapeuta recomenda a seu cliente outro tipo de terapia, não está atestando que sua técnica é ineficiente ou inferior.

   Coragem e humildade são dois ingredientes fundamentais para se crescer e se expandir.




      


MINHA HUMANA ESPIRITUALIDADE

I. Minha espiritualidade não está vinculada específicamente a nenhuma religião, tradição espiritual, seita ou escola filosófica ou psicológica.

Minha espiritualidade não está vinculada a nenhum Mestre, Guru, Guia ou Santo em especial.

Minha espiritualidade não está vinculada a nenhum ritual ou cerimônia religiosa.

Minha espiritualidade não privilegia nenhuma cultura, escritura sagrada nem nenhum tipo de musica sagrada em especial.

Minha espiritualidade não está vinculada a roupas, adereços e objetos religiosos de nenhuma cultura.

Minha espiritualidade também não critica, não desrespeita, não julga e nem discrimina quem está vinculado ao que citei acima.

Minha espiritualidade aceita como igualmente verdadeiras e sagradas todas as culturas, todas as religiões, tradições, Mestres, Gurus, escrituras sagradas, rituais e cerimônias.

Minha espiritualidade é a da pessoa comum, simples e humana, que como filha do Universo caminha rumo a Si.

II. Eu devo ser muito panteísta mesmo pois acho surreal esse papo de se Deus existe ou não . Esse "existir" que se pretende crer ou não, me remete sempre a acreditar em alguém que não vejo e não conheço porque está em algum lugar longe e desconhecido, que pune e recompensa, e que só vou ver e conhecer se seguir certas regras.

O fato é que eu olho pra fora e vejo a existência de Deus, olho pra dentro e vejo a existência de Deus. Simplesmente porque tudo existe. É quase lógico.
Penso que só me falta experienciar Deus como sendo Eu mesmo, porque no meu entender (e no meu sentir e no meu intuir) Deus é absolutamente tudo - corpo e mente, matéria e espírito, bem e mal, certo e errado, tempo e espaço, vida e morte.

Mas Deus é, para mim, principalmente, a Consciência e a Inteligência subjacentes a absolutamente tudo no Universo.

Consciência essa que em função de eu ainda trazer um inconsciente cheio de pendências e questões não resolvidas, equilibradas e integradas, ainda não consigo experienciar como sendo eu mesmo.

Entre quem EU SOU e como eu ainda humanamente estou, existe muito passado a ser curado.

E isso, na minha opinião, não tem nada a ver com existir ou não - já que a existência é óbvia - mas tem a ver com experienciar-se Um com toda a Vida.

E não acho que eu precise ter a fé cega que aprendemos que devemos ter.. Acho que eu apenas preciso ter olhos para ver, inteligencia para entender, sensibilidade para sentir e intuição para perceber, e é assim que eu forjo a minha fé.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

MACONHA: PLANTA SAGRADA, RECREATIVA OU VÍCIO ?


Já tem um tempo que ando querendo compartilhar as minhas reflexões sobre a adorada/odiada erva, em função do movimento que venho observando em relação à sua legalização.


Antes de expor minhas opiniões, gostaria de dizer que estas ideias são fruto dos meus 61 anos de vida, 40 anos como estudioso, pesquisador e praticante da espiritualidade, um bom tempo como usuário de cannabis, algum tempo como ex-usuário e 20 anos como terapeuta.


Nada disso me confere – nem eu pretendo – ser conclusivo nem portador da verdade, mas acho que minha vivência e experiência me confere algum conhecimento de causa e alguma isenção para poder refletir sem estar necessáriamente falando só besteira.


Também não pretendo aqui defender nenhuma posição, nem pró nem contra nada, apenas refletir e questionar.


A primeira coisa que me chamou à atenção foi a polarização que parece ter se criado: de um lado os setores que colocam a erva no mesmo saco que as outras drogas e demonizam tudo exorcizando qualquer possibilidade de diálogo, e muito menos, de liberação.


Por outro lado, a galera do “grow room” que parece panfletar sua causa se escondendo atrás das vantagens medicinais da planta (que certamente existem e está comprovado).


Essa - me perdoe a galera engajada - hipocrisia, me incomodou mais do que os xiliques xiitas dos caretas histéricos e cannabinofóbicos.


Eu sempre achei que o mais honesto é que o pessoal usuário fizesse sua campanha pela liberação advogando explícita e abertamente o uso recreativo, como acontece com o uso do álcool.


Bem, mas minha reflexão vai mais além.


A partir do meu know-how (que coloquei acima, e que, repito, não pretende ser conclusivo ou dono da verdade), eu percebo que existem 3 formas – ou 3 motivadores – de se usar a planta (estou excluindo aqui o uso medicinal):


1. O uso sagrado:
Realmente a cannabis sativa (e a indica) é uma planta sagrada em várias culturas, como por exemplo, na India e na África. Mas até onde eu saiba, o uso sagrado de plantas que alteram o estado de consciência, é restrito a cerimônias e rituais (ou a settings terapêuticos) para fins de cura e de expansão da consciência. E isso configura um uso esporádico. Ninguém faz cerimônias e rituais todo dia. E com certeza uma cannabis cheia de agrotóxicos e de energia de crime, como a que é vendida pelo tráfico, não se prestaria a trabalhos espirituais e terapêuticos.
No próprio âmbito das plantas sagradas, das plantas de poder, como o ayahuasca, já vi muita gente usando a planta no dia-a-dia fora do contexto ritual, numa explícita "troca de droga", tipo "não cheiro mais cocaína, não bebo mais, mas encho a cara dessa planta porque ela é sagrada, então tudo bem".


2. Uso recreativo:
Como o nome diz, uso recreativo é quando se usa alguma substância alteradora da consciência em situações de lazer. Tipo fumar um para ir a um show ou a uma festa, por exemplo, como muita gente faz com as bebidas. Isso também configura um uso esporádico. Ninguém vai à festa e show todo dia nem está o tempo todo de férias. E o termo uso recreativo também não significa que representa necessáriamente um conceito totalmente inócuo, pois muita gente se tornou alcoólatra (ou viciado em cocaína) a partir do uso recreativo. E o uso diário de qualquer substância com alcalóides de alguma forma, em algum tempo, traz danos à saúde.


3. Dependência química:
Como toda substância que possui alcalóides, a cannabis promove alguma dependência. Provavelmente não física, mas com certeza psicológica. E esta muitas vezes é mais difícil de tratar e curar do que a física, a exemplo da cocaína e do tabaco que produzem uma profunda dependência psicológica (além de produzirem ao longo de muito tempo de uso, também dependência física).
Como grande parte dos usuários de cannabis são usuários diários, podemos ver que este tipo de uso não se encaixa nem em uso sagrado nem em uso recreativo.
O uso diário de substâncias que alteram o estado de consciência (e não importa se é cannabis, tabaco, álcool ou cocaína) vem geralmente atender, não à expansão da consciência ou a cura, mas à fuga e a anestesia de sofrimentos da mente e da alma.
Ninguém altera constantemente (e impunemente) seu estado de consciência por razão nenhuma, ou apenas para se recrear.
Ignorar este fato é desconhecer o básico do funcionamento do ser humano, da sua psique e da sua espiritualidade.
E me parece que enquanto não se tiver coragem de encarar, expor e questionar abertamente esse fato, vai-se continuar sem se conseguir acessar que dores são essas que fazem com que se precise usar constantemente substâncias inebriantes para se anestesiar, para amenizar a dor. E obviamente, enquanto se anestesia, não se cura.


Enquanto uma substância funcionar como muleta para se sobreviver sem sofrer (e muitas vezes isso é sutil ou inconsciente), ou para se ser mais criativo ou produtivo (você consegue apreciar a natureza, ouvir musica, fazer amor, pintar, compor, sem fumar?) a verdadeira liberdade não é possível.


É mais rápido (e mais volátil) produzir o efeito de fumar um baseado do que conquistar, por exemplo, os resultados da meditação ou das terapias.


E vai se continuar a gastar muito neurônio e muita saliva para se continuar tecendo e expondo a tão conhecida teia de argumentações no sentido de convencer aos outros (e a si mesmo) que tudo bem fumar todo o dia, porque afinal de contas, maconha faz menos mal do que cigarro e bebida e é melhor do que tarja preta...


É importante salientar também que o conceito do que seja “droga” pode ser extendido a muitas atividades consideradas saudáveis, quando elas se tornam instrumentos de anestesia e compulsão.


Hoje, por exemplo, temos instituições tipo AA para comedores compulsivos, sexólatras, malhadores de academia, usuários de games e informática, etc.


Então, legalizar sim. Mas com coragem, honestidade e humildade para se olhar para a sua própria sombra. Só assim a cura e o crescimento acontecem.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A PESSOA HUMANA E O MITO

A PESSOA HUMANA E O MITO

Essa recente polemica feicebuquiana em torno da morte do Fidel - e que tem sucitado as tradicionalmente acirradas (e frequentemente raivosas) discussões sobre se ele foi bacana ou se foi um monstro - além de me mostrar a dificuldade que a maioria das pessoas tem de, além de terem suas opiniões e convicções pessoais, também terem um olhar mais isento e panorâmico (já fui até gozado por causa disso) para poderem apreender uma perspectiva histórica mais correta de uma forma mais neutra, sem muitas emocionalidades, também me sucitou uma reflexão sobre o Mito.

Todo mundo que alcança uma grande popularidade e que faz uma grande diferença no coletivo, acaba “ganhando” uma outra persona – antropológica, sociológica e psicológicamente falando : uma personalidade mítica, quase arquetípica.

E esta personalidade ganha no coletivo um significado e um simbolismo que não necessáriamente é totalmente coerente com a pessoa física original em seu aspectos humanos pessoal, doméstico, profissional, psicológico. As vezes é até bem paradoxal.

Este Mito, como grande ídolos, vem representar e inspirar no imaginário coletivo, ideais, posições ideológicas e filosóficas, crenças, esperanças, e vem frequentemente catalizar posturas, atitudes e movimentos.

E assim temos os nossos mitos e também os nossos anti-mitos. Todos, diga-se de passagem, sem uma unanimidade que traduza uma conclusão comum. Todos. Todos com luz e sombra, todos com defeitos e qualidades, com bons e maus feitos, com erros e acertos.

Vamos lembrar então – além do citado Fidel - de Guevara (que era homofóbico e racista), Hitler (que se por um lado fez o que fez, por outro transformou uma Alemanha detonada em uma das maiores potencias da época), Marx (que era um péssimo pai de família e não era lá muito dado ao batente, e que inspirou um sistema que efetivamente nunca foi implantado no planeta da forma como ele bolou), Stalin e Mao (por que será que Stalin e Mao que mataram tanto ou mais gente que Hitler não são mitos tão negativos como o nazista?), Gandhi (que além de sua atuação politica ter gerado, com a independência, a divisão da India e com ela um massacre sem precedentes, era um pai ausente e teve um filho alcoólatra), Madre Tereza (que tem sobre ela muitas suspeitas de coisas bem feias), Freud (que era super vaidoso, centralizador e rancoroso, e que teve uma história doméstica cheia de questões), John Lennon (que teve séria depressão e sérios problemas com drogas) e por aí vai...

Então vemos que por um lado temos pessoas humanas, que como todos os humanos tiveram seus defeitos, erros, imperfeições, falhas, mas que por sua importância se transformaram em mitos que transcendem quem eles foram como pessoas físicas e porisso passam a simbolizar não aquilo que foram em suas dicotomias e incongruências humanas, mas que passam a simbolizar emblemáticamente causas, ideais, sonhos, muito maiores que eles mesmos, como se uma “pessoa física” passasse a funcionar como “pessoa jurídica” no inconsciente coletivo.



SOBRE A FELICIDADE

FELICIDADE


Como diz meu querido amigo Ricardo Mendes Iralem, a receita da felicidade é concordar que o mundo (a vida) seja como ele é, que o outro seja como ele é, e que se seja como se é. 

Claro que concordar aqui não quer dizer acomodação, conformismo ou complacência. 

Quer dizer não resistência ao que é, quer dizer não tentar controlar o que não pode ser controlado. 

O caminho da mudança, do crescimento, da expansão, começa com a aceitação consciente, inteligente e madura do que é, e com uma noção bem clara de aonde, quando e como faço a minha parte e aonde, quando e como o Universo, o Imponderável, faz a parte dele. 

Impermanência e equanimidade são dois conceitos muito presentes no Budismo. 

Desapego é um conceito muito presente no Hinduísmo. 

E são, com certeza, elementos importantes na realização da verdadeira felicidade (não estou falando de prazer fugaz e de gratificação dos sentidos, que são parte importante da vida mas que não levam à felicidade). 

São conceitos importantes no aprendizado da aceitação da imponderabilidade e da imprevisibilidade da vida.

Como dizia um professor meu, para o nosso nivel de seres humanos neste planeta, talvez a felicidade possivel seja sairmos cada vez menos do nosso centro, do nosso equilibrio, e ao sairmos, voltarmos ao centro cada vez mais rápido. 

E isso já é coisa abessa para nosso estágio humano atual.

Agora, para realizar Ananda, a verdadeira e eterna felicidade constitucional e essencial do Ser, é preciso meditar, meditar, meditar.

A DESONESTA ARTE DE DESQUALIFICAR PARA TENTAR TER RAZÃO

A DESONESTA ARTE DE DESQUALIFICAR PARA TENTAR TER RAZÃO

I.              Desqualificar as manifestações de ontem taxando-as de "midiáticas" não me parece exatamente correto já que os comícios das Diretas Já e as marchas dos Cara Pintadas também não deixaram de ser midiáticas e o perfil dos manifestantes da época não era muito diferente do de ontem.

Eu quero ver é os argumentos do PT e do governo para a enorme, imensa discrepância entre o numero de pessoas que foram para as ruas contra e as que foram pró PT e governo...

Sabe o que eu acho? É que a massa que vota em peso no PT é a imensa massa miserável e ignorante que não vai para as ruas e que vota no governo em função da velha e demagógica politica coronelista do clientelismo e do populismo, que há séculos mantém a massa miserável sempre miserável e ignorante para poder trocar seus abundantes votos por cestas básicas, telhas, tijolos, e promessas que nunca são cumpridas.

Afinal porque será que dinheiro para copas do mundo e olimpíadas sempre aparecem de forma rápida e farta enquanto escolas, universidades e hospitais apodrecem???

E você pensa que se mudar o governo e o partido vai ser diferente? Pensa que PMDB e PSDB vão fazer diferente??? 

Se fosse para mudar, o PMDB e o PSDB teriam mudado no passado, pois tiveram tempo prá isso, e o PT com 4 governos também teve, e nada de fato mudou.

Só mudou fachada, maquiagem, embalagem, como sempre tem sido desde Floriano Peixoto...

Claro que PT, PSDB e PMDB fizeram coisas boas, mas mudar efetivamente o sistema doente, mudar o jeito corrupto e injusto de governar, mudar a ideologia de dominação e de desigualdades (sem ditaduras!) ninguém realmente mudou, e não foi falta de tempo nem de fundos, foi falta de interesse e de vontade e uma falta crônica e aguda de ética e de moral.

II.             Desqualificar as manifestações de ontem porque os manifestantes eram a "elite branca" comprometida com a Globo e com o PSDB parece um exagero deliberado e tendencioso, na medida em que a elite não é tão grande assim (classe média agora também é elite?), com certeza uma boa parcela dessa galera votou em alguma eleição no Lula ou na Dilma e com certeza uma grande parcela estava contra a corrupção independente de governo e de partidos (não foi legal ver o Aécio e oAlckimin vaiados?).

Não deixa de ser engraçado ver elite acusando elite de ser elite. Claro que também tinha gente que queria Bolsonaro e os milicos de volta, mas vamos esperar que estes sim sejam minoria.

Mas o fato é que "por acaso" (acaso o cacete, por escolha da maioria na época) o governo vigente é do PT, mas se fosse de outro partido (tipo PMDB ou PSDB) neste atual quadro absurdo de decadência moral e ética na politica, muito provavelmente as manifestações seriam iguais (e com o PT apoiando, claro).

E é engraçado quando o Lula e a Dilma enchem a boca para falar que a classe média cresceu porque com os governos do PT o pobre ascendeu.

Afinal, se ontem as passeatas eram da elite, e classe média parece também ser considerada elite, afinal ser elite é bom ou ruim, já que o PT se orgulha de ter alçado à classe média, ou seja à elite, um montão de gente que era pobre?

Claro que a corrupção não começou nem piorou com o PT (êta povinho de memória fraca... lembra Sarney, Collor, FHC?), apenas como o PT parecia trazer uma proposta de ser a antítese disso tudo aí, a indignação, a decepção e a revolta ficaram maiores, porque a tamanha incoerência foi muito inesperada e impactante.

E outra coisa, antes, quem roubava e corrompia era só rico (desonesto) porque rico (desonesto) sabe roubar.

Quando os "politicos do povo" do PT acessaram o pote de melado se lambuzaram, se embriagaram e não souberam "fazer direito" e tudo acabou vindo á tona de uma forma tão explosiva e tão transparente que ficou dando a impressão de que era a primeira vez que isso acontecia em um governo.

III.            Deus (seja lá quem ou como Ele for) me livre da cegueira de não ver que TODOS - governos e oposições, esquerdas e direitas - são igualmente manipuladores, corruptos, demagogos, mentirosos, oportunistas, aproveitadores e desonestos. É só se alçar ao Poder e logo tudo se nivela pela ganância, pela ambição, pelo egoísmo, pela mesquinharia e pela mediocridade. Deus me livre de segurar alguma bandeira, defender alguma posição, assumir algum lado, nessa "polarização" surreal onde os dois lados são explícitamente errados, ruins e negativos (embora, claro, também tenham feito algumas coisas boas). 
Que Deus me mantenha sempre consciente, isento, lúcido, atento e à parte dessa guerra de máfias pelo controle do tráfico. Sou absolutamente consciente de que tudo e todos envolvidos são marionetes de um sistema maior que controla política e economicamente o planeta e que fomenta a dominação, a injustiça social, as guerras, a decadência ética e moral e a destruição ambiental. Continuo pensando globalmente e agindo internamente. Isso tudo que está acontecendo agora é só um reflexo do que está acontecendo dentro de cada um. E só vai mudar fora quando mudar dentro.

IV.            É um saco essa obrigação quase dogmática de se ter que ter um lado para defender, uma bandeira para segurar, um time para torcer. Um porre essa coisa de ter obrigatóriamente que se ter uma galera "do bem" (que é a nossa) e uma galera "do mal" (que é a dos outros que não são da minha galera).
 E todos enchem a boca para cuspir bons argumentos e justificativas sempre prá lá de procedentes e pertinentes.
 É claro, todos os governos fazem coisas boas. Mas o fato é que o sistema é visceralmente injusto e corrupto e corrompe a todos os que chegam no poder. Não há espaço para justiça, igualdade e fraternidade. 
É só estudar História e ser minimamente bem informado. E todos, há séculos, sofrem de amnésia pré-eleitoral e se iludem que "agora o partido tal vai resolver, agora o presidente tal vai consertar tudo". E isso nunca de fato aconteceu. A merda e o perfume vem sempre misturados. E por falar em merda, a percepção que eu tenho nesse atual momento é que eu teria que escolher entre comer merda de gato ou de cachorro. E eu prefiro o jejum...

A ultima vez em que votei foi quando o Lula ganhou da primeira vez. Depois nunca mais votei. Fiquei decepcionado com a discrepância entre o que eu esperava e o que aconteceu, e também fiquei de saco cheio de ter sempre que votar no "menos pior" que é o que eu vinha fazendo há 30 anos, até porque era o que era possivel fazer. Todos os que, em algum momento, eu pensei que eram "o melhor" acabaram ou se corrompendo ou mostrando quem realmente eram. Não voto mais. 
E nesse meio tempo, entre outras coisas, tive que ouvir que se eu não votava não tinha o direito de reclamar. Ora, meu direito de reclamar não vem do fato de ser eleitor, vem do fato de ser contribuinte (existem países em que o voto não é obrigatório, mas não existe nenhum em que pagar imposto é facultativo). 
Não voto em branco nem nulo, não apareço prá votar nem justifico. 
Pago minha multa e vamos em frente. Depois que descobri que posso atuar e contribuir de outras formas me sentí liberto dessa ilusão política. 
Sigo bem informado, com visão crítica, sei ler nas entrelinhas, mas não me envolvo mais. 
Não sou alienado, sou utopista, e como isso não existe porque não é possivel com este tipo de humanidade, não participo e atuo em outras frentes (a começar pelo meu próprio interior que já é bem complicado).

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SOBRE MEDITAÇÃO E TERAPIAS

MEDITAÇÃO E TERAPIAS


Me parece – como resultado parcial da minha reflexão em função de 40 anos de buscador e quase 20 de terapeuta – que a espinha dorsal, o foco central de qualquer processo de auto conhecimento e de cura deveria ser a meditação.
Quase todas as culturas antigas parecem corroborar este fato.
E quase todas estas culturas desenvolveram técnicas e métodos não só de meditação como também de práticas acessórias que vão dar suporte e complementar este exercício.
E o que me parece mágico é que meditação, como técnica, é a coisa mais simples que existe, oferecida para se resolver a mais complexa – a questão do equacionamento do sofrimento e das limitações humanas, e a re-experienciação de quem realmente se É.
Então eu queria aqui refletir sobre o processo da meditação como um todo, em seu aspecto mais amplo.
E vou focar aqui nas culturas orientais, que são as que conheço melhor.
Percebo que todas estas culturas desenvolveram, não só variadas técnicas de meditação, como também de práticas e exercícios que tem a função de complementar, elaborar, e expandir para todo o complexo humano, os benefícios auferidos com a prática da meditação.
Estas antigas culturas percebendo a complexidade do ser humano, não só desenvolveram estruturas de conhecimento e de técnicas que se propõe a trabalhar toda a dimensão do ser humano, mas também abordando o trabalho sempre do interior para o exterior e do exterior para o interior.
Assim, vemos por exemplo, no Yoga, como todas as abordagens – Jñana, Bhakti, Karma, Raja, Hatha – contém em si todas elas. 
Impossivel, por exemplo, Karma Yoga sem Bhakti, sem Jñana, sem meditação, sem trabalhar a dimensão psico-física, e por aí vai, numa compreensão milenar da natureza holística e sistêmica do ser humano.
Uma outra característica fundamental das culturas orientais é a presença de um Guru, de um Mestre espiritual.
Desta forma, o Guru pode desempenhar quatro funções na vida de um discípulo:
- Oferecer sua Luz, seu Amor, sua Paz, sua Energia
- Oferecer seu conhecimento e sabedoria
- Oferecer seu exemplo de vida
- Oferecer sua companhia física no dia-a-dia do aprendizado do discípulo.
Para se beneficiar dos três primeiros quesitos não é necessário que o Guru esteja vivo. Todos os devotos de seres iluminados como Ramana Maharshi, Ramakrishna, Nisargadatta, Yogananda, entre outros, recebem a Luz, os conhecimentos e o exemplo de vida de seus Mestres sem precisar te-los conhecido pessoalmente.
Mas tem o quarto quesito, onde o Guru funcionava como uma espécie de terapeuta, ajudando ao discípulo à compreender, elaborar, transmutar todo o material psico-emocional-energético que era liberado através das práticas de meditação, dos estudos, das práticas devocionais, das práticas psico-físicas.
Quando, lá pelos idos dos anos 60 e 70, a cultura oriental “invadiu” o ocidente, vieram os livros, vieram as técnicas, a culinária, as músicas, mas vieram pouquíssimos Gurus, e muito pouca gente pode se beneficiar do dia-a-dia com um Mestre ao seu lado dando suporte às práticas, aos obstáculos e aos resultados delas.
E aí, na minha “viagem na maionese” eu penso que a consciência planetária vendo isso, e vendo que o ocidente ia acordar para o acesso a dimensões e níveis de realidade bem mais amplas e profundas de si e da vida, e percebendo que a figura do Guru não faz parte da realidade ocidental, precipitou a figura do terapeuta.
Inicialmente através da Psicologia e da Psicanálise, e depois das terapias em geral.
O terapeuta viria cobrir a lacuna da quarta função do Guru, a de facilitar o acompanhamento e o suporte de um dia-a-dia no exercício de técnicas e métodos de auto cura e de auto conhecimento.
A diferença é que o Guru é um ser iluminado capaz de enxergar a profundidade da mente e da alma de seu discípulo. Sua função maior é levar o discípulo à iluminação, à experienciação de quem ele realmente É.
O terapeuta é um técnico, que aprendeu um método - e que se submete também a ele - e que está habilitado a dar suporte terapêutico no decorrer da jornada de seu cliente. Sua função é a de ajudar ao cliente a viver da melhor forma possível a sua humanidade.
Uma outra coisa que acabou acontecendo com a chegada do mundo oriental no ocidente é que o conhecimento veio fragmentado.
Os orientais sabiamente desenvolveram estruturas filosóficas, corpos de conhecimento, onde o discípulo trabalhava e exercitava todas as dimensões do seu ser – corpo/emoções/mente/energia/espírito – com um corpo de técnicas e métodos que envolvia todos os níveis e dimensões do discípulo.
Então, sob a supervisão de um Guru, ele meditava, estudava as escrituras, fazia exercícios psico-fisicos (como Hatha Yoga), se educava em conceitos éticos e morais, exercícios devocionais, etc.
Quando estas culturas chegaram aqui, elas não vieram trazendo toda esta complexidade, todo este corpo de conhecimentos e técnicas, até porque quando uma cultura entra em outra, ela nunca entra inteira, dadas as diferenças (e os impecílios) de ordem geográfica, histórica, cultural, antropológica e sociológica.
Então as técnicas que antes eram realizadas dentro de um conjunto de procedimentos, passaram a serem feitas e exercitadas isoladamente, como, por exemplo, a meditação e o Hatha Yoga, que foram as que mais se notabilizaram aqui.
E na minha opinião, esta fragmentação, aliada à falta do Guru presente, de alguma forma diminuiu e sub utilizou a potência e a eficácia destas técnicas, segundo o objetivo e a efetividade a que elas se propunham quando em seus locais e culturas de origem.
Neste processo inteligente da consciência planetária, onde percebendo a futura eclosão desta expansão, precipita a Psicologia criando a figura do terapeuta, ela pretende que as terapias possam de alguma forma suprir estas lacunas, servindo como auxilio e suporte nos processos de auto conhecimento e de cura psico-emocional.
Voltando ao inicio da conversa, e trazendo-a para meu universo particular pessoal e profissional, penso que as terapias são poderosas ferramentas auxiliadoras e complementadoras das práticas de meditação e de Hatha Yoga, ajudando a processar e transmutar mais rapidamente o material psico-emocional em sofrimento e limitação que emerge do inconsciente através destas duas práticas, e consequentemente ajudando a tornar mais efetivos e profundos os efeitos destas práticas, e de forma mais rápida e otimizada.